24
Abril
2015

House of Cards e as diversas formas de construir um castelo de cartas

Cristiane Yagasaki

Como espectadora da série americana estrelada por Kevin Spacey, me senti privilegiada por revisar House of Cards, do inglês Michael Dobbs. A leitura é envolvente e a obra difere muito de sua versão para a TV. Na realidade, a série exibida pelo Netflix é baseada na minissérie homônima exibida no Reino Unido em 1990, no livro de 1989 e em suas respectivas continuações. A primeira minissérie, com Ian Richardson no papel principal, já realizava mudanças na história, algo comum na transposição de uma linguagem para outra. Incomum é o que veio a seguir: Dobbs modificou a história do livro após a exibição da minissérie de estrondoso sucesso.

Antes de iniciar sua carreira como escritor, Michael já era político do Partido Conservador da Inglaterra. O autor conta que escreveu o livro após uma desavença com a primeira-ministra Margaret Tatcher, o que nos faz imaginar se Francis Urquhart não tem algo de alter ego que possibilitou um escape para desejos vingativos de Dobbs. Ironicamente, Margaret Thatcher sofreu pressões internas do partido e acabou renunciando ao cargo de primeira-ministra em 1990, na mesma semana em que House of Cards foi exibida pela primeira vez na BBC.

Michael Dobbs esteve envolvido na produção de ambas as versões televisivas de sua obra, a qual já sofreu algumas alterações e parece ter a mesma fluidez de variação que as posições políticas de seus personagens. Imaginar qual a fronteira entre a ficção e o retrato fiel do mundo político pintado por alguém que o integrava é um bom passatempo. Para os que conhecem o anti-herói Frank Underwood, é interessante compará-lo a sua versão britânica, aristocrática e conservadora. Sentimos a falta de Claire, uma mulher intrigante que participa de todas as decisões do democrata. A esposa de Urquhart é meramente protocolar. Por outro lado, a jornalista original, Mattie Storin, é uma personagem com mais profundidade e potencial para receber empatia do público que sua correspondente americana, Zoe Barnes.

Já quem passou incólume pela febre que a série gerou pode desfrutar da experiência inicial de acompanhar a manipulação milimetricamente calculada que o protagonista promove dentro e fora do governo para atingir seu objetivo revanchista. Cada capítulo inicia-se com uma epígrafe bem-humorada. A ironia que pontua as falas de Francis e permeia a narração tem uma ação dúbia: ameniza o desconforto do leitor ao acompanhar as atrocidades cometidas pelo protagonista enquanto potencializa a crueldade de seu completo descaso com os outros seres humanos.

Tags: House of Cards, Benvirá, revisão
Publicação: Diversitações