25
Fevereiro
2016

"Desventuras em Série" e a dificuldade do trabalho do tradutor

Thais Rocha

Cada vez mais percebo que qualquer coisa que se lê é um aprendizado. Não importa se é um leve livro infanto-juvenil, ou um denso volume de informações técnicas. Sempre se pode aprender alguma coisa com um livro – e nunca deixe alguém que ache que aquele livro em particular é irrelevante te convencer do contrário!

Minha mais recente experiência literária tem sido com as incríveis Desventuras em Séries, de Lemony Snicket (pseudônimo do escritor Daniel Handler), na verdade, com seu texto original A Series of Unfortunate Events.

A série é genial. Não apenas por sua proposta inusitada de narrar para crianças (ao contrário dos contos de fada versão Disney com seus lindos finais cor de rosa) os infortúnios da vida dos três irmãos Baudelaire, Violet, Klaus e Sunny; mas também pela forma como o narrador conduz a narrativa. Lemony é engraçado, sarcástico e sincero, e leva sua história com aberturas inusitadas, explicações ótimas para palavras que o público infantil certamente não conhece, e desinibidamente colocando fatos de sua vida pessoal no meio da história.

São nessas explicações e jogos de palavras que se apresenta o grande desafio dos tradutores ao se depararem com um livro desses. Aqui só falarei da versão em inglês, então não sei como o tradutor da editora que detém os direitos da série no Brasil solucionou esses desafios. Vamos aos exemplos:

 

1. Só para começar temos uma sigla que aparece na maioria dos livros da série: V.F.D. No decorrer da série V.F.D. foi Village of Fowl Devotees, Volunteer Fire Department, Vertical Flame Diversion, Verbal Fridge Dialogue, Verse Fluctuation Declaration, Volunteers Fighting Disease, e muitas outras coisas mais. Como manter isso em uma tradução? V.F.D. é uma organização que os irmãos procuraram, mas até eles descobrirem o verdadeiro significado, vários outros V.F.D. aparecem em suas vidas. Imagine traduzir isso com a série ainda em andamento! Uma liberdade tomada e você pode comprometer todo o desenrolar da história.

2. Explicações de palavras com mais de um significado. Isso acontece com muita frequência, e apesar de parecer inofensivo, é um grande problema. Por exemplo, em um capítulo Lemony fala sobre a palavra “hard”, que pode significar algo duro ou algo difícil. No mesmo capítulo também menciona “bear”, que pode ser urso ou o verbo suportar. É impossível transpor isso para outras línguas, da mesma forma que é impossível transpor os dois significados de “manga” para o inglês. O tradutor fica então com a dura escolha de perder esse jogo de palavras (ou seja, perder uma característica essencial de estilo do autor) ou perder a semântica do texto.

3. No sétimo livro, a amiga sequestrada dos Baudelaire se comunica com eles através de quatro poeminhas de dois versos, com as primeiras letras de cada verso soletrando (alerta de spoiler!) a palavra “fountain”. Em português, a tradução seria “fonte”, que tem menos letras e não funcionaria em quatro poemas de dois versos cada.

4. O vilão, Olaf, tem uma tatuagem de um olho no tornozelo esquerdo. Mais adiante na série descobrimos que esse olho também é um símbolo com letras estilizadas para V.F.D. Há ilustrações dessa tatuagem. Considerando que o tradutor teve que mudar a sigla, já que V.F.D. não funcionaria em português, como explicar esse detalhe do desenho para os leitores?

 

E esses são só alguns exemplos. Parece que não há escapatória mesmo, toda tradução é uma traição, e isso não significa que a tradução é ruim. Mesmo a mais genial das traduções não conseguiria transpor um livro em sua integridade, seja ele infanto-juvenil ou técnico.

Tags: tradução, livro, desventuras
Publicação: Diversitações