01
Março
2016

Visando à regência, adquirimos um dicionário

Renato Ritto

Por mais que tenhamos a noção de que a língua é um organismo vivo e está em constante mudança e que sim, você fala português tanto quanto qualquer outro falante nativo de português e o nosso uso da língua é o que importa, não o que diz a norma padrão da língua em certos momentos, quando um texto é formal demais ou quando vai ser publicado em algum livro ou revista (que tem um caráter duradouro), é necessário fazer uma consulta a um manual e verificar qual é a preposição usada com determinado verbo ou substantivo na norma padrão.

A regência por preposição, para quem não se lembra do conceito por trás do uso, existe por conta da exigência de complementação de alguns verbos e substantivos do português. Assim, não faria sentido dizer que "A moça põe" sem dizer o que ela põe e onde ela põe. Dessa forma, "A moça põe o dicionário na estante" mostra dois tipos de complementos: um complemento que não exige preposição (o dicionário) e um complemento que rege a preposição "em" (na estante). Isso existe com os mais variados verbos, sendo que os que possuem complementos que necessitam de regência de preposição são chamados transitivos indiretos e os que possuem complementos sem necessidade de preposição são os verbos transitivos diretos. Um verbo também pode ser transitivo direto e indireto (como é o caso do verbo "pôr", citado anteriormente) ou intransitivo, que é, grosso modo, um verbo que não necessita de complemento nenhum.

Quando o texto soa estranho ou pouco apurado quando escrito, provavelmente existe algum tipo de "problema" de regência. Alguns verbos, como o famoso "visar", são um verdadeiro vespeiro por possuírem múltiplas possibilidades de regência ou porque possuem uma regência muito corrente na fala, mas não contemplada no manual. Brigas sérias e fins de amizade já aconteceram por conta da presença ou não da preposição em "visar". Assistir também já causou deveras problemas: quem assiste, assiste algo ou a algo? Se você passar a frase "Eu assisti ao filme" para a passiva, o objeto em "O filme foi assistido por mim" não é "o filme", de qualquer maneira?

Enfim, como sabemos que o campo da gramática dá mais o que falar do que a entrega dos Oscars de 2016 e se Leonardo DiCaprio mereceu ou não o Oscar de Melhor Ator, é conveniente, quando estiver revisando, utilizar um manual de regência e embasar suas decisões. Assim, caso perguntado, você já pode dizer que a opinião sobre o "visar a" não é sua, mas de Celso Pedro Luft, autor de um dos manuais de regência verbal. Quem é que vai querer contrariar Luft? Pode até querer, mas aí terá que argumentar com ele, não com você.

Indicações:

LUFT, Celso Pedro. Dicionário prático de regência nominal. São Paulo: Ática, 2015.
LUFT, Celso Pedro. Dicionário prático de regência verbal. São Paulo: Ática, 2015.

Tags: revisão, gramática, regência
Publicação: Diversitações