30
Outubro
2014

Relatório: Curso "Psicanálise, religião, política e arte"

Cristiane Yagasaki

Nos dias 16 e 17 de outubro de 2014, foram ministradas palestras no Centro de Formação do Sesc SP sobre o tema “Freud e a Cultura”. Regina Herzog abordou conceitos básicos da teoria freudiana, como pulsão (diferente de instinto, palavra utilizada erroneamente por Starchey como tradução para o alemão Trieb e adotada na edição brasileira de O mal-estar na cultura, da Imago), recalque, sublimação (força motriz de muitas obras de arte), complexo de Édipo e o mito de Totem e Tabu (que explica diversos aspectos da cultura). Foi discutido o embate entre nossas pulsões e as regras da sociedade, grande responsável pela histeria, mal do século XIX – no qual as mulheres sofriam ainda mais repressão sexual. Hoje em dia há menos proibições, porém mais cobrança de desempenho. Por isso, o mal do século XX é a depressão. Ainda assim, a professora contou que houve relatos de paralisia das pernas de meninas que receberam a vacina contra o HPV este ano, e constatou-se que foi um caso de histeria coletiva.

Falou-se também de como a sociedade da época de Freud recebeu sua teoria baseada na pulsão sexual e a ideia da sexualidade infantil. Um ponto bastante presente durante as palestras foi a visão do criador da psicanálise sobre a religião. Freud acreditava que o indivíduo tem um sentimento muito grande de desamparo e precisa da religiosidade para sentir-se protegido (muitas vezes por uma figura totêmica) e chegou a dizer que a religião era uma neurose obsessiva universal, da qual o homem se livraria à medida que progredisse.

Ao contrário de Marx, Freud não achava que a igualdade diminuiria o sofrimento humano. Para ele, essa função seria desempenhada por substâncias tóxicas, como a cocaína. O psicanalista acreditava que nosso psiquismo contém uma agressividade indestrutível. Não sentimos amor sem ódio. Dentro de comunidades (como as religiosas e as militares), temos de amar o Pai totêmico e nossos pares. O ódio não desaparece, mas é direcionado aos que estão fora da comunidade, aos que são diferentes – mesmo que minimamente.

Nos dias 23 e 24 de outubro, o tema foi “A cultura e seus discursos”, elucidado por outra palestrante. Inicialmente, foram expostas as considerações de Freud sobre a arte. De Goethe, Freud levou a influência de seu estudo autobiográfico, Dichtung und Wahrheit, de Fausto (obra da qual ele extraiu a máxima “Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu”) e de A Metamorfose das Plantas, obra responsável por sua decisão pela Medicina. O psicanalista confessou abertamente que a literatura e a escultura eram as duas artes que mais lhe emocionavam, seguidas pela pintura e, por último, pela música. Para ele, a arte traz um sentimento intoxicante e paliativo similar ao das drogas. Ele recebeu o prêmio Goethe por O mal-estar na cultura.

A arte também foi abordada por Lacan, que estudou Hamlet e a obra de James Joyce, que era para o psicanalista a demonstração viva de que a escrita pode funcionar como um “ego de suplência”, permitindo que um sujeito psicótico permaneça dentro do laço social e seja nele reconhecido. Por fim, o curso abordou os esquemas psíquicos de Freud e Lacan.

Regina Herzog substituiu a palestrante programada com competência, ainda que tenha se esquecido de utilizar as apresentações de slides preparadas. A professora da semana seguinte pareceu um pouco desorganizada. Em geral, o Sesc organizou bem o curso, em um espaço de boa estrutura e design. Pessoalmente, nutro um grande interesse pela psicanálise e, apesar de já conhecer vários dos conceitos apresentados, foi proveitoso retomá-los e aprofundá-los. Eles já estão me auxiliando na interpretação literária (pelo viés psicanalítico que minha professora de Literatura Brasileira adota) e me auxiliarão caso trabalhe com textos da área de Psicologia. De qualquer forma, penso que estudar psicanálise sempre nos ajuda a entender melhor o mundo.

Tags: curso, Sesc, psicologia, Freud
Publicação: Diversitações

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